Política de Fato

A necessidade de adiamento do ENEM

Por Uilliam Pinheiro/ Opinião.


18/05/2020 12:48

Desde o início da pandemia, os governos estaduais e municipais estabeleceram decretos, de forma correta, suspendendo as aulas em todas as escolas da rede pública e privada como medida para diminuir a curva de contágio do coronavírus. Feito isso, já se passaram mais de dois meses que estudantes estão sem aulas presenciais, são pouquíssimas as instituições de ensino da rede pública e privada que tem condições de oferecer aulas online sem deixar ninguém para trás.

Nessa situação fica evidente a desigualdade social entre estudantes que sofrem com o abismo que vive o "Brasil profundo" no acesso à internet de qualidade e equipamentos de tecnologia.

Diante de tantas crises e problemas, quero chamar a atenção de todos para um específico: a necessidade de adiamento do ENEM, não o seu cancelamento.

O Ministério da Educação, através de seu ministro tuiteiro Abraham Weinbraut, tem defendido com unhas e dentes a manutenção do calendário que prevê as provas para a primeira e segunda semana de novembro. Sua posição demonstra absoluto desconhecimento da realidade de grande parte dos estudantes brasileiros, muito diferente de países ricos como a França e EUA que cancelaram seus vestibulares que dão acesso à universidade por causa da pandemia do novo coronavírus.

Segundo o IBGE em 2018, um em cada quatro pessoas no Brasil não tem acesso à internet, ou seja, cerca de 46 milhões de brasileiros não acessam a rede. Além da barreira da conexão à internet, a maior parte dos estudantes de baixa renda não têm locais adequados para estudos, pois a maioria vivem em casas pequenas com um número grande de membros da família e sem acesso à livros e materiais que auxiliem nos estudos. O professor, na maioria das vezes, é o principal ator na formação desses estudantes e devido a pandemia, a relação entre ambos está muito limitada ou em muitas vezes inexistente.

Em entrevista à CNN na última sexta-feira,15/05, o ministro Weinbraut não conseguiu responder ao jornalista como os estudantes sem acesso à internet farão para estudar e soltou essa pérola: “o ENEM não é feito para corrigir as injustiças sociais, é para selecionar as melhores pessoas, as mais capacitadas (...)”. Quanta ignorância vinda do ministro da educação!

O ENEM deve ser uma prova que possibilite condições, minimamente, iguais para todos os estudantes seja da área urbana como rural, seja rico ou pobre. Já existe historicamente uma desigualdade social que faz os estudantes de baixa renda carregarem alta desvantagem em relação aos estudantes com maior acesso à informação e recursos financeiros.

O adiamento do ENEM é uma medida urgente e necessária. Se o ministro não assume posição pelo adiamento por consciência própria, iremos pressionar para que o Congresso Nacional, o faça. O Brasil não pode pactuar com uma administração federal na educação que incentive o perpetuamento de um sistema de desigualdade social vindo dos anos de 1500 por causa de um governo com fortes traços autoritários que quer impor sua vontade acima da vontade do povo. Haverá adiamento do ENEM sim!

Uilliam Pinheiro
Ativista social, graduado em Economia e graduando em Licenciatura em História